Sobre a Mostra Ifé

Mostra de Cinema Ifé

A 2° Mostra de Cinema IFÉ reúne obras audiovisuais produzidas por realizadores ou coletivos negres, indígenas e LGBTQIA+ de diversos estados do Brasil. Em 2022, a Mostra acontece gratuitamente e em formato híbrido com atividades presenciais, em Niterói (Sala Nelson Pereira dos Santos) e no Rio de Janeiro (Cinema Nosso), e online.

A Mostra nasce da vontade de reverenciar IFÉ que na linguagem iorubá significa “amor”, reconhecendo que o audiovisual negre, indígena e LGBTQIA+ aciona dinâmicas profundas de uma interseccionalidade que pouco tem sido sistematizada no âmbito dos Festivais. Em meio ao contexto político atual, a Mostra pretende, através das exibições dos filmes e de atividades formativas, garantir um espaço crítico, diverso e fomentador de novas produções.

A proposta da Mostra é valorizar a diversidade da produção cinematográfica brasileira, através da disseminação dos trabalhos que têm sido desenvolvidos por realizadores negres, indígenas e LGBTQIA+ no país nos últimos anos, e aprofundar o debate em torno de elementos teóricos e técnicos que constituem uma produção audiovisual.

De 31 de maio a 05 de junho de 2022, a programação reúne 20 filmes produzidos por realizadores ou coletivos negres, indígenas e LGBTQIA+. A curadoria, assinada por Anti Ribeiro, Fabio Rodrigues Filho e Milena Manfredini, realizou um sensível processo de pesquisa curatorial selecionando obras audiovisuais, de distintos gêneros e formatos (curtas, vídeo-perfomance, documentários e outros).

Os filmes estão divididos em cinco programas temáticos: Corporificar o que há de político no ser; Buscar a si é encontrar os seus; Ressonâncias e ancoragens do sensível; Mergulhos nos breus; A fumaça ainda guarda o fogaréu. Após exibição presencial em Niterói e no Rio de Janeiro, os filmes ficarão disponíveis por vinte e quatro horas no site da Mostra. Acompanhando as exibições, os Programas contam ainda com debate online com os realizadores.

Além das produções audiovisuais, espaços de formação também estão garantidos na Mostra. Serão quatro edições de painéis formativos, duas oficinas de audiovisual (criação e produção de videoclipe e de vídeo para redes sociais) e três Seminários com artistas, poetas, críticas, e pesquisadoras do audiovisual negre e indígena. E, para celebrar os encontros, Lounges e Happy Hours encerram as atividades.

A dupla Mariana Campos (Cineasta) e Ana Beatriz Silva (Produtora Cultural) assinam a direção da Mostra. A MOSTRA IFÉ é uma realização da Timoneira Produções Artísticas e a edição de 2022 tem patrocínio da Prefeitura de Niterói, contemplada no Edital de Fomento Foca, da Prefeitura do Rio de Janeiro – Secretaria Municipal de Cultura e apoio da RioFilme.

IFÉ para TODES!

Texto curatorial

Tema da Mostra - Transbordar o Indizível

“Dentro do mar tem rio
Dentro de mim tem o quê?
Vento, raio e trovão
As águas do meu querer”

(Maria Bethânia)

“Rezo para Terra
Amansadeira de almas
Frutificadora da vida
Abraçadeira da morte
Relicário de memórias
A terra tudo engole
Nela coexisto
e (re)existo
Te convido à honra-la
saboreá-la
Oferendar-te à ela.”

(Hariel Revignet)

“Embora nenhuma quantidade de palavras possa articular isso corretamente, a água vai, em seu desfazer, esconder algumas palavras e códigos e sons em sua inconstância. A água sempre conterá as qualidades desfeitas do que afundou, sua memória diluída. A água vai.”

(Jota Mombaça)

 

“Transbordar o Indizível” foi o nome que nos chegou ao tecer os contornos desta inspiradora trama desenhada entre os 20 filmes que compõem esta edição. O transbordar se materializou não só nos percursos das obras como também em nosso processo curatorial, de acolhermos e nos deixarmos afetar com filmes que propunham em suas abordagens um rompimento de convenções, formas e linguagens. Obras que, assim como a força e a delicadeza das águas, trafegam vazantes e cintilantes por onde passam.

O desvio do curso das águas, em sua organicidade, nos remete ao movimento sinuoso no qual _s cineastas e artistas visuais que integram esta curadoria desenvolvem em suas investigações aqui apresentadas. Enquanto caminho curatorial, uma transposição para além dos formatos e do que se convenciona foi o que nos mobilizou. Pois o salto no vazio, no qual muitos dos trabalhos propunham, nos deslocou e nos fez apostar em maneiras de expressar o que não se pode capturar e reconhecendo que muitas vezes as palavras e as imagens não comportam a imensidão e as complexidades do que se é.

A água não é, por assim dizer, nem língua nem linguagem, ela é em si. Se transbordar pressupõe um movimento de água, além do limite, há algo a se atentar da sua sabedoria de água: tecnologia, existência, cura, enigma, verdade… traga e expulsa, lava e guarda, profundidade insuspeita. Perigosa quando parece calma, agitada quando sugere-se delicada. Finalmente, se transbordar é aquilo que ressaltamos, ainda assim podemos estar falando de mergulhos nos dizíveis ou movimentos de idas e vindas, multi-sentidos que um movimento abriga. Ao fim, transbordar o indizível pressupõe movimentos de água concomitantes, acontecendo no mesmo momento em que as fronteiras são ultrapassadas. Movimentos existenciais, poderíamos dizer… e uma existência é complexidade reluzente. Assim, transborda-se o indizível não para torná-lo dizível, mas para ser em si e a um só tempo espalhar-se, transbordar pelo enfrentamento mas pela construção constante de si, dar à luz a si: “quem cura a água é água”, nos lembra Hariel Revignet, artista citada em uma das nossa epígrafes.

Desenhamos cinco programas a partir das tessituras de cada obra e compreendendo os possíveis diálogos e interseções. Os programas são: “Corporificar o que há de político no ser”, “Buscar a si é encontrar os seus”, “Ressonâncias e ancoragens do sensível”, “Mergulhos no breu” e “A fumaça ainda guarda o fogaréu”. Filmes que espraiam-se além do que se vê, sente e entende e que assim como a natureza nos ensina que se faz necessário trafegar nas circularidades, ou seja, saber ser cheia, como o fluxo das marés, dos rios e da lua, para compreendermos a dinâmica cíclica do vir a ser. Transbordar o indizível é descobrir e reconhecer as potencialidades contidas no estado fronteiriço.

Anti Ribeiro, Fabio Rodrigues Filho e Milena Manfredini
Curadoria

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